Rio Grande do Sul realiza etapa preparatória para o III ENE

 

Entre 24 e 26 de agosto, ocorreu em Porto Alegre (RS) uma das etapas estaduais preparatórias do III Encontro Nacional de Educação (ENE). O eixo central do encontro estadual foi a construção de um projeto classista e democrático de educação. O III ENE deve ser realizado na capital federal em abril de 2019.

Eblin Farage, secretária-geral do ANDES-SN, participou da mesa “Capitalismo, Trabalho e Educação”. A diretora do Sindicato Nacional ressaltou que o ENE é prioridade para o ANDES-SN desde a sua primeira edição, em 2014. Segundo a docente, o ENE serve como um espaço de reflexão e de construção de um projeto de educação contra-hegemônica.

Para a diretora do Sindicato Nacional, o capital tenta impor a sua lógica de mercantilização na educação pública, como as “Fundações de capital privado” e as parcerias público-privadas. Ela alertou para outras ameaças privatistas, como a cobrança de mensalidades nas instituições públicas de ensino superior (IES).

Eblin Farage apontou que os cortes de verbas, intensificados pela EC 95, acentuam a competição entre os docentes das IES. “Como não há dinheiro para bolsas, impressões de livro e nem para o custeio do material do dia-a-dia da sala de aula, os professores ‘brigam’ cada vez mais pelos editais e se rendem à lógica da produção individual, da criação de centros de excelência e à hierarquização de projetos e cursos em rankings promovidos pelas próprias agências de fomento”, disse.

Os crescentes casos de assédio, perseguições políticas nas IES e o aumento do conservadorismo nos ambientes universitários e escolares também foram apontados por ela. “Precisamos resistir a estes ataques e lutar para a construção de uma educação que leve a emancipação humana”.

Para Joaninha de Oliveira, da CSP- Conlutas, que também compôs a mesa, a redução de custos para o aumento do lucro é global.  A professora aposentada da rede estadual de Santa Catarina citou, no caso brasileiro, a reforma proposta pela Base Nacional Curricular Comum (BNCC). A regra prevê, entre outras medidas, a não obrigatoriedade do ensino de sociologia, filosofia e história nas escolas. Segundo ela, populações de outros países estão sofrendo com essa lógica de destruição dos currículos escolares. Ela mencionou o caso do Canadá que recentemente retirou a obrigatoriedade das disciplinas de história e filosofia. “É possível derrubar a reforma do Ensino Médio, a BNCC, essa luta a gente vai ganhar porque a gente vai estar junto”, ressaltou Joaninha.

Ressignificar e resistir

Por uma educação afrocentrada, no campo, nas mãos dos estudantes e indígenas foram temas tratados na mesa “Experiências de Educação popular no Capitalismo”. Os palestrantes apresentaram modelos alternativos de debater e construir a educação em tempos de crise e de tentativas de desmonte da educação pública.

Vladimir Motta, educador social e da Frente Quilombola de Porto Alegre, criou um projeto de estudo da história brasileira de forma “afrocentrada”. A ideia se opõe ao “eurocentrismo” do ensino de história convencional, usando a capoeira e as rodas de conversa como ferramentas pedagógicas. Com a iniciativa, o professor promove a superação do racismo. “Não adianta chegarmos com uma postura de educar, de cima para baixo, querendo impor uma desconstrução” afirmou Motta, explicando que neste modelo a relação é de troca e reflexão.

O vice-cacique da aldeia guarani Maquiné, Karahy Tiaguinho, contou um pouco da dinâmica da educação indígena, que difere das escolas convencionais. “Na nossa forma de aprender não há cadeiras, nem livros, nem hora ou lugar para aprender” explicou. Em muitos casos, conforme Karahy, para receber educação, o indígena frequenta uma escola de brancos e precisa morar fora da aldeia. As aulas são ministradas na língua portuguesa em uma lógica pedagógica adequada à cultura branca. “Nós aprendemos muitas coisas que os brancos não sabem com os nossos mais velhos. Como quais plantas são remédios, como viver da nossa terra, as coisas da nossa cultura, nossa religião e as nossas regras da aldeia”, contou.

Outro exemplo de resistência foi contado por Daiane Marçal, professora, agricultora e moradora do assentamento Madre Terra, a 40 km do município de São Gabriel (RS). No assentamento vivem famílias de produtores rurais e até pouco tempo as crianças não tinham como acessar o ensino básico sem fazer longos deslocamentos. “As crianças tinham que acordar no meio da madrugada e caminhavam de 7 a 12 quilômetros com seus pais, para pegar um ônibus, que nem sempre passava, e então viajarem por 2 horas até a escola mais próxima”, relatou.  Após muita organização e luta, a comunidade conquistou a unidade escolar “Semente Libertária”, que oferece as séries iniciais e o ensino fundamental. Daiane contou que mesmo com a conquista, os ataques não cessam. Segundo a professora, todos os anos, na época do início do período letivo, sempre há uma tentativa de impedir a unidade de retornar as aulas.

Os estudantes Gabriel Fernandes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Júlia Maria, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) contaram as suas experiências nas ocupações de 2016. Gabriel na época era secundarista. Para ele, a grande vitória dos “processos de ocupação foi a formação de uma geração que aprendeu a lutar, se organizar e viver de forma coletiva”.

“Foi um momento em que a juventude passou a pensar para além da sua individualidade e a agir coletivamente” explicou a estudante Júlia. Ela relembrou a assembleia estudantil ocorrida em 2016, que reuniu mais de 5 mil alunos no estádio do Centro de Educação Física da UFSM.

Carta de Porto Alegre
No domingo, dia 26, ocorreu a plenária de encerramento que apontou os principais tópicos que estarão presentes na Carta de Porto Alegre. O documento, que ainda será apresentado, irá sintetizar os debates das mesas e dos Grupos de Trabalho que compuseram o encontro em âmbito estadual.

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Com edição e acréscimo de informações de ANDES-SN. Texto original e Fotos: Ivan Lautert

 

Fonte: Sedufsm SSind.

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